domingo, 27 de janeiro de 2008

Crime


Eu acabo de cometer um crime, um homicídio cruel. Eu matei dentro de mim um ideal! Há muito eu o sentia franco, arrítmico em meu peito. Tentei me enganar, achando que era apenas uma fase, que era apenas uma virose de verão. Um dia eu me levantei e olhei-me no espelho, procurei bem no fundo dos meus olhos, dentro daquela luzinha que insiste em brilhar, e percebi que meu ideal era apenas uma sombra soterrada de desculpas que me fui dando ao longo da vida.

O tempo sempre a usurpar-me as horas de meu relógio. Não pude pará-lo, nem compra-lo, tão pouco prende-lo nas páginas de um livro e esquece-lo, só esquece-lo. Tive que conviver, adaptar-me, escravisar-me e acabou que não alimentei meus ideais e este em particular, o mais velho, o qual também eu pensava , mais resistente, só por ter sido o primeiro, só por ser o primeiro.

Foi justamente este que morreu por último, parece inconcebível que tenha sido eu seu algoz, poderia ter sido a necessidade, por que ela sempre nos empurra para abismos insofismáveis, poderia ter sido a culpa que sempre nos humilha e nos faz perdulários dos sonhos, poderia ainda ter sido a vida, mas esta só alimenta aos idéias, não os condena ao ostracismo, ao degrado, ao desterro irremediável.

Sobrou-me agora o cadáver pálido deste ideal, sobrou-me uma imagem horrenda de sua caveira, os buracos dos olhos fundos, ossos descarnados e amontoados. Putrefatos.

Pensei que talvez pudesse reavivá-lo com as lembranças do tempo em que ele era tão somente um gérmen, e nascia forte em meu peito com o desejo arrebatador de ser. Mas não se pode criar corpo aquilo que agora é só fumaça, virou bruma das noites de frio.

Como assassino, réu confesso de bárbaro delito expus-me a justiça de meus dias, a ver se me condenava os pesadelos às galés, queria sentir o baque do chicote do nunca mais em meus ombros e o sangue das vertigens banhar o meu dorso nu.

Porém a chama dos archotes de esperança brilhavam incansáveis e não sabia eu que ideais não morrem, não de todo, eles apenas embernam e inertes ficam como vermes em estado latente, até voltarem fortes, tão subsistentes que tornam-se autotróficos. E no momento oportuno explodem e seus pedacinhos, tal qual sementes, multiplicam-se nesse fecundo terreno chamado coração.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Castelos



Passara toda manhã entretido na construção da fortificação, as pequenas mãos enchiam-se de punhados de areia, alguns grãos teimavam, escapando dos dedos, voando com o vento. Muitas idas e vindas tinha dado, com o balde azul espumando de água salobra, derrubando, em pequenas ondas de vertigens, bocados de água que traçavam poças no chão.

A terra encharcada, tornava-se rija como cimento, firme as mãos apalpavam os punhados, que aos poucos se solidificavam, e unidos viravam paredes, torres, caminhos... As conchas catadas mais cedo davam toque as dobradiças da janela, fazia vez de maçaneta da tranca das portas, os palitos de picolé, enterrados a meio mastro eram então bandeira real.

O sol queimava a pele alva do principezinho, incansável em sua batalha quimérica, sua verdade estava ali, em meio a praia apinhada e era o mesmo que estar sozinho, por que dentre todos os deleites de verão, alguém ousava sonhar.

Dos muitos garotos que corriam a beira mar, jogando magotes de água, boiando de dorso virado, levantando areia , derretendo-se , chorando e esperneando, um único guri, parecia alheio a alta temperatura, aos olhos irritados de sal, a secura da boca, ao suor da testa , ao cheiro do sargaço a tudo e a todos.

Não havia platéia além dos arrecifes que formavam piscinas naturais, nas quais as mães livres das nefastas ondas, permitiam que seus filhos afoitos, nadassem com água na altura das coxas.

Mas o tempo passava e o entardece veio deixar vermelho o céu que outrora fora manhã clara, finalmente o menino terminava o seu labor, não se viam mais as muralhas de corais, apenas ouvia-se o barulho das ondas batendo-se com fúria.

Afastou-se o herói, finda a guerra, junta-se as armas e parte-se em busca de novas batalhas, outras aventuras que o desprenda da sua realidade. Por que nisso se constituí o mistério da vida, em uma onda mais desavisada que arrebente mais próxima da praia e leve consigo os castelos de areia.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Cadáver Azul



A lingerie azul era um corpo a parte da cena dantesca que se desenrolava ante os olhos de rapina da polícia local e curiosos de plantão, não esquecendo claro da imprensa que rodeavam o palco do crime.

Todos lânguidos, teciam conjecturas da moça nua que exalava sua exuberância, enchendo de falsa pudicícia o recato das mulheres presentes.

O cheiro adocicado de sangue recente adentrava pelas narinas dos que tinham olfato sensível e começava a escurecer junto com o dia que se despedia, deixando no céu a cor púrpura, rasgando nuvens e descortinando estrelas.

Pouco a pouco, imperceptivelmente, amontoaram-se e começaram o falatório por trás da faixa amarela que separava os populares da entrada da casa.

Uma dessas mulheres, que olhavam a outra despida por entre os vidros da janela, empertigou-se, falando com ares tardios de aristocracia, que a tal só podia ser mais uma devassa, - Infelizmente este é um fim comum a todas. Entregam-se ao prazer nefasto da carne em troca e uns caraminguás, que nunca valem pela decência perdida.

Mas atentos ao fato da cor da lingerie ser de tom tão ameno que não condizia a mulher perdida, talvez uma recatada esposa , que ludibriada em sua inocência feminina por um desses aventureiros, deixara a família, e poderia ter até filhos, esperando súplices por seus carinhos que jamais tornariam. Todos então discordaram da recalcada, que sem argumentos decidira pela mudez.

O burburinho continuava em sugestas, alguns chegava a dizer conhecedores da defunta e mui amigos dos parentes. Ninguém, porém de fato lançava-se à prerrogativa de solucionar o caso.

Muitos comentavam que a moça lembrava as feições daquela atriz decadente, cujo nome esqueceu-se, pois nem tanto sucesso chegou a fazer.

Os peritos recolhiam provas substanciais, imóvel permanecia a lingerie azul, um pedaço do firmamento sobre o colchão d’água.

Um oceano de possibilidades e apenas a lingerie azul fora testemunha ocular e talvez conivente do bárbaro acontecimento.

Jazia, carregando sobre si uma culpa, a máxima culpa de ser mais um cadáver exposto na cama em desalinho naquele quarto de paredes em tom pastel.

Acaso os girassóis não são os mesmos?


Acaso os girassóis não são os mesmos?
São, portanto restos de sol num ninho sem pássaros. Ainda ontem os via todos sonhos, doirados, balouçando-se ao vento. E então a estiagem os colheu. Deixaram marcas, talvez rastros despercebidos.
Nem o ocaso é mais o mesmo, bruxuleiam luzes que não vem de estrelas, são pequenos vaga-lumes, fagueiros, incertos. Correm alguns devaneios, pueris, introspectos. Nem areia tenho em meus olhos.
Nado contra a correnteza dos meus dias, tempos a fio e nem margem avisto, entrego-me a renuncia de ser. Estar preso na matéria que me consome secularmente, é uma prisão sem grades que me tolhe o espírito folgazão, desenho-me nas nuvens do céu a ver se crio asas.
As pernas quebradas impedem meu andar, e o sombrio cabisbaixo que hoje me cai em prantos, tornara-se opaco ante a esperança muda de um sorriso. Queria saber escrever os meus tantos, que me acumulam o pesar dos anos, que me caem dos braços doloridos, da labuta diária do pão, alimento apenas do corpo.
Cava-se em meu peito a necessidade de um protesto, mas meus lábios cerram e a expectativa do escarro que porá enfim, o ponto final de todo este martírio e ele simplesmente engasga-me, asfixia, mais não afrouxa o laço e espera que eu sucumba, que se arroxeiem as minhas faces, já pálidas ante a voracidade que de boca escancarada me arranca todo o sopro vital.
Acaso os girassóis não são os mesmo?
Vejo que se compadecem dos meus passos, e caminham um tanto mais comigo, a cova é rasa mais cabem meus desejos, eles não terão que esperar pelo último beijo.
Oculto meu rosto, é o pejo e o medo, se dependuram nas tranças, se tatuam nas paredes brancas que recendem a cal.
As estrelas são fúnebres cortejos, iluminam a noite fria, e sem tardar o vacilante engatinhar do tempo infindo, do branquear dos cabelos, do soluçar angustiado do que se perdeu antes mesmo de se ter.
Ouço os teus gemidos como quem escuta o agouro das aves de rapina e sem martírio esperam de punhos abertos, contendo copos cheios de água e esborrantes de gelo.
Não terei que esperar-te, também não terei que ver-te partir. Tornaram-se cegos os olhos rasos de mar salgado, tornaram-se amargos os prazeres infantis e já não terei que senti-los queimando-me como o fogo extinto dos teus pesadelos.
Me basta deixar-te chorando entre os vivos, que me atiram sua piedade insana, que não carregam consigo seus girassóis, que os deixam morrer a sóis, perdidos no vazio do adeus.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

A rocha à beira mar.



Andava pela beira mar... As ondas se achegavam aos meus pés, água salobra e quente. Os sargaços enroscavam-se em meus calcanhares. No horizonte barcos entregavam-se a doce vontade da correnteza.

Acalma-me olhar assim para o infinito, o sol vai indo, vai indo... Entardece! Cato conchas, brancas, brancas, ás vezes encontro estrelas do mar, pedacinhos de céu, jogo-as de volta num arremesso suave. Parece que o mar está secando, pois posso ver as pontas dos arrecifes de corais e quase não há praistas;

Continuo caminhando, o vento muda as areias de lugar, construindo castelos nômades a seu bel-prazer. As nuvens agora ganham matizes cor-de-rosa, tingindo o que dantes era azul e imperturbável... Gosto de descobrir desenho em nuvens, por que elas se desfazem e se refazem como os sonhos.

Agachado, pego um punhado de areia, em minhas mãos seus grãos escorrem indeléveis, como uma ampulheta eterna.

Rabisco meu nome com a ponta do indicador, capricho na letra, mas logo depois num movimento displicente apago com a palma das mãos, como se riscasse a minha existência. Faço desenhos desconexos, levanto-me e apago os desenhos com a sola do pé. Volto a caminhar.

Deparo-me com pegadas anteriores as minhas, muitas vezes fazemos o mesmo percurso de milhares de pessoas, sem nos deter que estamos caminhando na mesma direção, e nem sequer nos reconhecemos. São milhões de pés gravados, passos sem nome e sem cor, apenas estão lá para provar a existência de um caminho já percorrido.

Às vezes são passadas solitárias, outras traçam ziguezagues, muitas são acompanhadas e trazem remorsos ou alegrias. Algumas são firmes e determinadas outras leves quase vacilantes, adultas, adolescentes, infantis, são apenas restos de lugares que se foi e talvez não se tenha voltado, quem sabe mudado de curso? Tantas estão perto do oceano sem fim, pregadas como rochas á beira do mar, e as ondas vão apagando do mesmo jeito que tento apagar as pedras do rochedo, com pancadas espumantes das ondas ferozes.

Experimento algumas dessas gravações digitais, pequenas, médias, grandes, em nenhuma meus passos se encaixam.

Canso-me, é hora de voltar, e eu volto caminhando agora sobre os meus próprios passos... Meus pés se encaixam perfeitamente em minhas pegadas.