
Eu acabo de cometer um crime, um homicídio cruel. Eu matei dentro de mim um ideal! Há muito eu o sentia franco, arrítmico em meu peito. Tentei me enganar, achando que era apenas uma fase, que era apenas uma virose de verão. Um dia eu me levantei e olhei-me no espelho, procurei bem no fundo dos meus olhos, dentro daquela luzinha que insiste em brilhar, e percebi que meu ideal era apenas uma sombra soterrada de desculpas que me fui dando ao longo da vida.
O tempo sempre a usurpar-me as horas de meu relógio. Não pude pará-lo, nem compra-lo, tão pouco prende-lo nas páginas de um livro e esquece-lo, só esquece-lo. Tive que conviver, adaptar-me, escravisar-me e acabou que não alimentei meus ideais e este em particular, o mais velho, o qual também eu pensava , mais resistente, só por ter sido o primeiro, só por ser o primeiro.
Foi justamente este que morreu por último, parece inconcebível que tenha sido eu seu algoz, poderia ter sido a necessidade, por que ela sempre nos empurra para abismos insofismáveis, poderia ter sido a culpa que sempre nos humilha e nos faz perdulários dos sonhos, poderia ainda ter sido a vida, mas esta só alimenta aos idéias, não os condena ao ostracismo, ao degrado, ao desterro irremediável.
Sobrou-me agora o cadáver pálido deste ideal, sobrou-me uma imagem horrenda de sua caveira, os buracos dos olhos fundos, ossos descarnados e amontoados. Putrefatos.
Pensei que talvez pudesse reavivá-lo com as lembranças do tempo em que ele era tão somente um gérmen, e nascia forte em meu peito com o desejo arrebatador de ser. Mas não se pode criar corpo aquilo que agora é só fumaça, virou bruma das noites de frio.
Como assassino, réu confesso de bárbaro delito expus-me a justiça de meus dias, a ver se me condenava os pesadelos às galés, queria sentir o baque do chicote do nunca mais em meus ombros e o sangue das vertigens banhar o meu dorso nu.
Porém a chama dos archotes de esperança brilhavam incansáveis e não sabia eu que ideais não morrem, não de todo, eles apenas embernam e inertes ficam como vermes em estado latente, até voltarem fortes, tão subsistentes que tornam-se autotróficos. E no momento oportuno explodem e seus pedacinhos, tal qual sementes, multiplicam-se nesse fecundo terreno chamado coração.



