
Acaso os girassóis não são os mesmos?
São, portanto restos de sol num ninho sem pássaros. Ainda ontem os via todos sonhos, doirados, balouçando-se ao vento. E então a estiagem os colheu. Deixaram marcas, talvez rastros despercebidos.
Nem o ocaso é mais o mesmo, bruxuleiam luzes que não vem de estrelas, são pequenos vaga-lumes, fagueiros, incertos. Correm alguns devaneios, pueris, introspectos. Nem areia tenho em meus olhos.
Nado contra a correnteza dos meus dias, tempos a fio e nem margem avisto, entrego-me a renuncia de ser. Estar preso na matéria que me consome secularmente, é uma prisão sem grades que me tolhe o espírito folgazão, desenho-me nas nuvens do céu a ver se crio asas.
As pernas quebradas impedem meu andar, e o sombrio cabisbaixo que hoje me cai em prantos, tornara-se opaco ante a esperança muda de um sorriso. Queria saber escrever os meus tantos, que me acumulam o pesar dos anos, que me caem dos braços doloridos, da labuta diária do pão, alimento apenas do corpo.
Cava-se em meu peito a necessidade de um protesto, mas meus lábios cerram e a expectativa do escarro que porá enfim, o ponto final de todo este martírio e ele simplesmente engasga-me, asfixia, mais não afrouxa o laço e espera que eu sucumba, que se arroxeiem as minhas faces, já pálidas ante a voracidade que de boca escancarada me arranca todo o sopro vital.
Acaso os girassóis não são os mesmo?
Vejo que se compadecem dos meus passos, e caminham um tanto mais comigo, a cova é rasa mais cabem meus desejos, eles não terão que esperar pelo último beijo.
Oculto meu rosto, é o pejo e o medo, se dependuram nas tranças, se tatuam nas paredes brancas que recendem a cal.
As estrelas são fúnebres cortejos, iluminam a noite fria, e sem tardar o vacilante engatinhar do tempo infindo, do branquear dos cabelos, do soluçar angustiado do que se perdeu antes mesmo de se ter.
Ouço os teus gemidos como quem escuta o agouro das aves de rapina e sem martírio esperam de punhos abertos, contendo copos cheios de água e esborrantes de gelo.
Não terei que esperar-te, também não terei que ver-te partir. Tornaram-se cegos os olhos rasos de mar salgado, tornaram-se amargos os prazeres infantis e já não terei que senti-los queimando-me como o fogo extinto dos teus pesadelos.
Me basta deixar-te chorando entre os vivos, que me atiram sua piedade insana, que não carregam consigo seus girassóis, que os deixam morrer a sóis, perdidos no vazio do adeus.
Um comentário:
Olá
Como vc é amante da literatura, me ajuda a achar o autor desse pedaço de poema que consegui guardar na minha mente, mas que me encantou...
"Sera na fé e na razão que o mundo abraçará o que há de mais sensível. E amarmos uns aos outros não será assim tão impossível, porque o sol nascerá a cada manhã....
é mais ou menos isso ai, conhece?
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