quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Acaso os girassóis não são os mesmos?


Acaso os girassóis não são os mesmos?
São, portanto restos de sol num ninho sem pássaros. Ainda ontem os via todos sonhos, doirados, balouçando-se ao vento. E então a estiagem os colheu. Deixaram marcas, talvez rastros despercebidos.
Nem o ocaso é mais o mesmo, bruxuleiam luzes que não vem de estrelas, são pequenos vaga-lumes, fagueiros, incertos. Correm alguns devaneios, pueris, introspectos. Nem areia tenho em meus olhos.
Nado contra a correnteza dos meus dias, tempos a fio e nem margem avisto, entrego-me a renuncia de ser. Estar preso na matéria que me consome secularmente, é uma prisão sem grades que me tolhe o espírito folgazão, desenho-me nas nuvens do céu a ver se crio asas.
As pernas quebradas impedem meu andar, e o sombrio cabisbaixo que hoje me cai em prantos, tornara-se opaco ante a esperança muda de um sorriso. Queria saber escrever os meus tantos, que me acumulam o pesar dos anos, que me caem dos braços doloridos, da labuta diária do pão, alimento apenas do corpo.
Cava-se em meu peito a necessidade de um protesto, mas meus lábios cerram e a expectativa do escarro que porá enfim, o ponto final de todo este martírio e ele simplesmente engasga-me, asfixia, mais não afrouxa o laço e espera que eu sucumba, que se arroxeiem as minhas faces, já pálidas ante a voracidade que de boca escancarada me arranca todo o sopro vital.
Acaso os girassóis não são os mesmo?
Vejo que se compadecem dos meus passos, e caminham um tanto mais comigo, a cova é rasa mais cabem meus desejos, eles não terão que esperar pelo último beijo.
Oculto meu rosto, é o pejo e o medo, se dependuram nas tranças, se tatuam nas paredes brancas que recendem a cal.
As estrelas são fúnebres cortejos, iluminam a noite fria, e sem tardar o vacilante engatinhar do tempo infindo, do branquear dos cabelos, do soluçar angustiado do que se perdeu antes mesmo de se ter.
Ouço os teus gemidos como quem escuta o agouro das aves de rapina e sem martírio esperam de punhos abertos, contendo copos cheios de água e esborrantes de gelo.
Não terei que esperar-te, também não terei que ver-te partir. Tornaram-se cegos os olhos rasos de mar salgado, tornaram-se amargos os prazeres infantis e já não terei que senti-los queimando-me como o fogo extinto dos teus pesadelos.
Me basta deixar-te chorando entre os vivos, que me atiram sua piedade insana, que não carregam consigo seus girassóis, que os deixam morrer a sóis, perdidos no vazio do adeus.

Um comentário:

MARIA TERESA disse...

Olá
Como vc é amante da literatura, me ajuda a achar o autor desse pedaço de poema que consegui guardar na minha mente, mas que me encantou...
"Sera na fé e na razão que o mundo abraçará o que há de mais sensível. E amarmos uns aos outros não será assim tão impossível, porque o sol nascerá a cada manhã....
é mais ou menos isso ai, conhece?