quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

A rocha à beira mar.



Andava pela beira mar... As ondas se achegavam aos meus pés, água salobra e quente. Os sargaços enroscavam-se em meus calcanhares. No horizonte barcos entregavam-se a doce vontade da correnteza.

Acalma-me olhar assim para o infinito, o sol vai indo, vai indo... Entardece! Cato conchas, brancas, brancas, ás vezes encontro estrelas do mar, pedacinhos de céu, jogo-as de volta num arremesso suave. Parece que o mar está secando, pois posso ver as pontas dos arrecifes de corais e quase não há praistas;

Continuo caminhando, o vento muda as areias de lugar, construindo castelos nômades a seu bel-prazer. As nuvens agora ganham matizes cor-de-rosa, tingindo o que dantes era azul e imperturbável... Gosto de descobrir desenho em nuvens, por que elas se desfazem e se refazem como os sonhos.

Agachado, pego um punhado de areia, em minhas mãos seus grãos escorrem indeléveis, como uma ampulheta eterna.

Rabisco meu nome com a ponta do indicador, capricho na letra, mas logo depois num movimento displicente apago com a palma das mãos, como se riscasse a minha existência. Faço desenhos desconexos, levanto-me e apago os desenhos com a sola do pé. Volto a caminhar.

Deparo-me com pegadas anteriores as minhas, muitas vezes fazemos o mesmo percurso de milhares de pessoas, sem nos deter que estamos caminhando na mesma direção, e nem sequer nos reconhecemos. São milhões de pés gravados, passos sem nome e sem cor, apenas estão lá para provar a existência de um caminho já percorrido.

Às vezes são passadas solitárias, outras traçam ziguezagues, muitas são acompanhadas e trazem remorsos ou alegrias. Algumas são firmes e determinadas outras leves quase vacilantes, adultas, adolescentes, infantis, são apenas restos de lugares que se foi e talvez não se tenha voltado, quem sabe mudado de curso? Tantas estão perto do oceano sem fim, pregadas como rochas á beira do mar, e as ondas vão apagando do mesmo jeito que tento apagar as pedras do rochedo, com pancadas espumantes das ondas ferozes.

Experimento algumas dessas gravações digitais, pequenas, médias, grandes, em nenhuma meus passos se encaixam.

Canso-me, é hora de voltar, e eu volto caminhando agora sobre os meus próprios passos... Meus pés se encaixam perfeitamente em minhas pegadas.

Um comentário:

por Luíza Fabiola disse...

Que belíssimo texto Laurinha!
De verdade!
Que este blog seja o seu primeiro passo!
AMEI de verdade!!

^^

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